[leia] Entrevista com um artista do Apodi
Peço licença ao(à) querido(a) leitor(a) para expor uma entrevista com o meu querido conterrâneo Netinho, ou melhor, o nosso querido artista Dionísio do Apodi, que arrasta seu talento no mundo da arte mostrando garra na profissão que leva alegria, emoção, riso e muito amor ao público que adora um bom espetáculo.
JOSY MAIA – Fale um pouco sobre quem é o grande e querido artista Dionísio do Apodi.
DIONÍSIO DO APODI – Dionísio do Apodi é um operário que acredita no trabalho que faz. Faz teatro com muita seriedade sem perder o divertimento que esta arte permite. Falando agora na primeira pessoa, posso dizer que sou inquieto e que estar em cena é um grande prazer. Ninguém escolheu fazer teatro, por mim, escolhi fazer teatro profissionalmente porque gosto. O teatro é uma escolha minha e não passatempo. E para fazer isso, a pessoa já mostra um pouco quem é. Por isso, me assumo como teimoso e, no meu dicionário, teimosia é uma virtude. Mas, digamos que eu seja uma "metamorfose ambulante", que está sempre aprendendo e buscando melhorar o que faz. "O homem que nunca entra duas vezes no mesmo rio, porque as águas são outras", como diz o filósofo Heráclito. Adoro águas novas, adoro percorrer caminhos novos, grandes desafios. Não tenho medo de obstáculos. Quando caio levanto e me ponho a caminhar novamente. Hoje talvez seja assim como eu me defino. Amanhã, não sei.
JM - Como se originou o grupo de teatro "O Pessoal do Tarará" e qual o primeiro espetáculo montado e apresentado por vocês?
DA - Nosso grupo nasceu da necessidade de fazermos uma arte independente. Eu fazia parte do grupo de teatro da Uern, quando cursava Ciências Sociais. A universidade foi uma escola, mas ao mesmo tempo impõe coisas que não casam com a arte, que são distintas. Por isso saí e, junto com alguns amigos, formamos O Pessoal do Tarará, que nasceu de uma necessidade de fazermos um trabalho contínuo, de pesquisa. Nosso grupo, como sempre digo, é um projeto de vida e não apenas um lazer, um hobby. É lazer porque dá muito prazer fazer teatro, mas hoje todos os nove integrantes vivem ou sobrevivem do trabalho do próprio grupo. Dedicamo-nos ao teatro em tempo integral. Nosso primeiro espetáculo foi "Sanduíche de Gente", que era um texto de Crispiniano Neto, que hoje é presidente da Fundação José Augusto, que na época escreveu a peça especialmente para O Pessoal do Tarará.
JM - Quantos e quais personagens você já interpretou?
DA - Falar na quantidade fica difícil porque já interpretei vários. Todos marcam, todos deixam alguma coisa, porque você a partir daquele personagem passa a entender melhor aquele mundo, e ao mesmo tempo são suas coisas que você empresta para a cena. É bem delicado, e por isso é necessária a tal da sensibilidade. Mas, dentre os personagens que fiz, vou destacar três: Severino, que faço atualmente; Lampião, que vivi por três anos no Chuva de Bala; e Édipo, num trabalho com João Marcelino, em Natal.
JM - De quem partiu a idéia da realização do projeto “Apodi - Rota das Artes” e como se deu a parceria com o Banco do Nordeste?
DA - A idéia de fazer o projeto "Apodi - Rota das Artes" partiu da necessidade de o grupo ter um contato maior com Apodi. Tem o fato de eu ter nascido em Apodi, mas também já tínhamos vindo apresentar espetáculos em duas ocasiões, mas sempre em períodos muito curtos. Percebemos que há uma necessidade de a população de ter acesso a uma arte de qualidade, de poder ter outras possibilidades, não apenas no Carnaval e vaquejada. Nada contra os dois eventos, mas não pode ser somente isso. Com o nosso projeto, com o espetáculo capitaneado por Júnior Costa (que estreou recentemente), acredito que estamos abrindo um momento importante em Apodi. Tem gente querendo ver e fazer teatro também aqui. Então, há campo, espaço, e é o momento de aproveitar. Já, a nossa relação com o Banco do Nordeste sempre foi de muito respeito. O BNB nos apoiou no início, há seis anos, e sempre teve o nosso respeito. Aprovamos o projeto através do Programa BNB de Cultura. Aliás, aprovamos dois: "Apodi - Rota das Artes" e "Tem Gato na Cachorrada", que é uma nova montagem, que também chegará a Apodi, só que em dezembro deste ano.
JM - O espetáculo "A Peleja do Amor" é de sua autoria? Quanto tempo levou para estruturar esse grandioso e emocionante espetáculo?
DA - A Peleja é uma livre adaptação de um grande texto do teatro mundial chamado "Cyrano de Bergerac", do autor francês Edmond Rostand, que viveu no século XIX. Eu assino a adaptação do texto, mas meu grande mérito foi coordenar o encontro desse francês erudito com a cultura popular nordestina. Passei um ano trabalhando a adaptação com os atores, em cena, e digo que até hoje ainda estamos em “processo de adaptação”, porque sempre encontramos uma nova possibilidade em relação ao próprio texto.
JM - Você e o grupo foram homenageados com quantos prêmios até o momento e de que forma surgiram as indicações?
DA - Não sei precisar a quantidade de prêmios. Sei que somente o espetáculo "A Peleja do Amor no Coração de Severino" já ganhou dezenove pelos mais variados locais deste país, e dentre eles cinco premiações de melhor espetáculo em festivais. Mas, o grupo ganhou outros prêmios também. Com relação a mim, sempre considero que os prêmios que ganho em meu nome nunca são individuais. Não é demagogia, mas é que fazemos um trabalho de grupo, e em grupo não vemos o indivíduo, mas o coletivo. Foi uma emoção especial, para mim, ganhar o Prêmio O Poty 2008, como Artista de Teatro do Ano no RN, concedido pelo Diário de Natal. É o prêmio maior de nossa cultura potiguar. Em 2008, também fui homenageado com o Troféu Grande Ponto, como destaque na categoria Ator, também no Estado. Além desses, já ganhei prêmios em festivais como ator e diretor. Mas, minha relação com os prêmios é tranquila. Ganho, curto, mas no dia seguinte preciso voltar ao trabalho, para melhorar.
JM - Quais os projetos que você e o grupo têm dentro da arte?
DA - Nosso maior foco hoje é o projeto "Apodi - Rota das Artes", que até o final de março ainda trará muita coisa para os apodienses. Logo após, daremos início a um outro grande projeto, em Mossoró, que é o nosso Ponto de Cultura, recém-aprovado pela Fundação José Augusto e Ministério da Cultura. Faremos uma nova montagem, via Banco do Nordeste, e teremos uma temporada em São Paulo e voltaremos ao Rio de Janeiro. A verdade é que, para este ano, não temos mais nenhum espaço na nossa agenda. Essa é a rotina do nosso grupo: muito trabalho.
RAPIDINHAS
AMOR: Minha família, minha esposa, meus companheiros de teatro, o teatro.
ÓDIO: Até a palavra é horrorosa.
AMIZADE: Meus companheiros de grupo.
DINHEIRO: É para dominarmos ele, e não sermos dominados por ele.
FALSIDADE: Inimiga da amizade.
MEDO: De não ter tempo para realizar tudo o que quero na vida.
EGOÍSMO: Não pode prevalecer no trabalho de grupo.
RECEIO: Perder meus amigos.
VIOLÊNCIA: Quando o diálogo não existe.
SABIEDADE: Sempre.
PERDÃO: É dos sentimentos mais nobres.
COMPREENSÃO: Aprendo isso com cada personagem que interpreto.
DIGNIDADE: Sempre, em tudo.
SAUDADE: Da minha infância em Apodi.
COMIDA: Quem faz é a fome.
PERFUME: O ideal em cada ocasião. O que vale é a sensibilidade, assim ensina minha esposa.
MEUS PAIS: Ensinaram-me trabalhar, a existir, a amar...
O MUNDO DE HOJE PRECISA DE: Educação.
SE EU PUDESSE MUDAR O MUNDO: Permitiria que todos pudessem fazer o que mais gostam e não o que a sociedade impõe.
DEUS: "É a vontade de estar feliz".
UMA FRASE: "Só sei que nada sei".










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